Como alcançar a paz mundial e combater grupos violentos, como o Estado Islâmico?

Dificilmente um ser humano seria capaz de responder completamente esta pergunta. Uma teoria formulada pelo jornalista americano Thomas L. Friedman, do The New Tork Times, sugere uma poderosa arma de pacificação em massa: Big Macs. Segundo sua “Teoria dos Arcos Dourados para Prevenção de Conflitos”, dois países com presença de franquias McDonald’s nunca entraram em guerra desde que a lanchonete se instalou nos dois países.

A regra permanece válida em 2015, com poucas e controversas exceções que a confirmam, caso esteja correto o velho ditado.

No livro seguinte, Thomas publicou uma nova versão de sua teoria, em que saem os hambúrgueres e entram notebooks: a “Teoria Dell para Prevenção de Conflitos” afirma que dois país integrantes da cadeia produtiva global de uma mesma mega-empresa, como a Dell, jamais entraram em guerra.

Longe de serem correlações casuais, frutos de mera coincidência, as duas teses de Thomas Friedman encontram sustentação tanto na teoria quanto nos dados. A ideia não é sequer nova. Ainda no século XIX, o economista e deputado francês Frederic Bastiat dizia que “quando produtos e serviços não cruzam as fronteiras, os exércitos o fazem”.

É fácil entender o raciocínio se pensarmos em casos concretos. Se, por qualquer motivo esdrúxulo, o governo brasileiro cogitar uma guerra contra a Argentina, a ideia provavelmente seria desfeita quando alguém lembrasse que quase 10% de tudo o que o Brasil exporta vai para lá, assim como quase 10% de tudo o que os brasileiros importam.

Uma guerra imediatamente faria o pão nosso de cada dia ficar muito mais caro, dado que 5,5 milhões de toneladas de trigo argentino viajam todo ano para abastecer mesas brasileiras. Com o fim das exportações de carro, sapato e comida para a Argentina, a guerra jogaria milhares de brasileiros no desemprego. Não é difícil aplicar o mesmo raciocínio para países como Estados Unidos e China, ou China e Taiwan, que em tese representariam conflitos muito mais prováveis. Quando as fronteiras econômicas estão integradas, o preço da guerra é maior.

Daí viriam os exemplos da McDonald’s e da Dell. A instalação de uma rede global de fast-foods exige certo grau de integração econômica com o mundo e uma classe média urbana que consuma os lanches. Já a presença na cadeia produtiva de uma transnacional como a Dell, que engloba dezenas de países, depende de fronteiras razoavelmente abertas à circulação de bens.

Essa também é uma das conclusões do premiado psicólogo Steven Pinker, da Universidade de Harvard, no livro Os anjos bons da nossa natureza – Por que a violência diminuiu”. Os últimos quinze anos foram os mais pacíficos da história humana. A convivência humana nunca foi tão harmônica e assassinatos vitimam uma parcela cada vez menor da população, especialmente por conta do número tão baixo de guerras.

A superação da violência é observável quando olhamos para dados das últimas décadas e até mesmo dos últimos séculos. De acordo com Pinker, é impossível contar a história dessa pacificação sem falar sobre o comércio. E não é a toa, portanto, que os últimos anos de pacifismo coincidam justamente com o período que cientistas sociais chamam de globalização. Em um mundo globalizado, o custo de uma guerra pode ser alto demais. De acordo com as palavras do próprio Pinker:

“Países comercialmente próximos tendem a brigar menos uns com os outros. E independentemente, países que se integram mais à economia global tendem a procurar menor problemas. (…) É a teoria da paz capitalista. (…) Você não mata seus clientes ou fornecedores. O surgimento de uma infraestrutura de trocas e comércio reduz as vantagens de conquistar militarmente outro país.”

Isso não significa que a integração econômica seja suficiente para impedir qualquer guerra de acontecer. Como Pinker lembra em entrevista à Vox.com, o presidente Vladimir Putin envolveu a Rússia militarmente no conflito ucraniano, atitude que jogou o país numa crise econômica principalmente por conta das diversas sanções comerciais internacionais que se seguiram.

Putin provavelmente sabia que o custo de sua decisão seria alto, mas achou que o benefício, provavelmente ligado a um valor abstrato como o orgulho patriótico, era maior do que as punições. O conflito russo-ucraniano é a violação mais clara à Teoria dos Arcos Dourados que se tem registro. A rede McDonald’s estava presente nos dois países, mas há quem considere que se trata principalmente de uma guerra civil.

De acordo com os pesquisadores Bruce Rossett e John O’Neal, também da Universidade de Harvard, a teoria da paz capitalista não é só uma intuição econômica secular, mas um fenômeno verificável dentre os dados existentes. De acordo com Rossett e O’Neal:

“Quanto mais democrática for uma dupla de países, menor será o risco de disputas militarizadas entre eles. Quanto mais dependentes do comércio for a dupla, menor será o risco de disputas. Os efeitos do comércio e da democracia são similares em magnitude, mas o efeito do comércio [sobre a pacificação das relações internacionais] pode ser ainda mais que o efeito da democratização.”

Comércio internacional em excesso certamente não é um problema dos países onde o terrorismo islâmico encontra espaço para florescer. Entre os 20 mais fechados do mundo, de acordo com o relatório Doing Business, estão Síria, Afeganistão, Iraque, Nigéria, Sudão e Iêmen.

No caso específico do Estado Islâmico , a luta contra a globalização é uma das causas do grupo. Após cada atentado, seus comunicados criticam não apenas as incursões militares do Ocidente, mas também – e principalmente – a depravação da cultura pop em todas as suas formas.

Os motivos são metafísicos, mas também materiais. A quem pretende instalar um califado tradicionalista, poucas coisas são mais revoltantes do que os clipes da Madonna aos quais a juventude de Alá tem acesso no youtube. Quando os ocidentais e cristãos ganham rosto, seja pela mídia ou por uma transação econômica, é mais difícil recrutar soldados para assassiná-los.

A política externa dos países ocidentais costuma responder atos violentos com restrições comerciais. A medida faz sentido sob dois pontos de vista. Primeiro, a simples ameaça de sanção inibe atitudes agressivas. Segundo, as sanções podem ser estratégica no curto/médio prazo para obrigar “países agressivos” a assinar acordos.

O problema que não se vê está no último caso, do grupo que não se inibe com as ameaças de punição comercial e se recusa a negociar acordos, enquanto aceita pagar o “custo” das sanções em nome de um bem maior. Este é o caso de Cuba, que sofre com um embargo econômico dos Estados Unidos que já dura meio século. Os irmãos Raul e Fidel Castro, dispostos a construir um socialismo que não se submetesse ao “império”, simplesmente pagaram (ou fizeram o povo o pagar) o custo dos embargos e conseguiram fortalecer tanto a sua ditadura quanto o discurso anti-americano no país.

O tempo talvez faça o Ocidente perceber que, se a intenção for mesmo a de gerar a harmonia no longo prazo, incentivar o surgimento de sociedades comerciais é mais eficiente e humano do que quaisquer bombas ou sanções.

 

 

 

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