Você conhece os problemas da África. Aprendeu sobre em aulas, reportagens e filmes. Boas notícias, infelizmente, recebem menos atenção. Especialmente as muito boas, que demoram anos para acontecer e não rendem pautas quentes a jornais diários.
Uma das boas notícias mais bem documentadas no mundo da economia é o fenômeno da convergência entre países. Desde a Revolução Industrial, alguns povos passaram de desfrutar riqueza e qualidade de vida jamais vistas, incomparáveis com o resto do mundo. A convergência sugere que, ao longo dos anos, essas diferenças entre países tendem a diminuir. E, com o tempo, tendem a desaparerer até ficarem bastante pequenas.
Pode ser lento e envolve vários passos distintos, alguns certamente mais difíceis do que outros. O lado bom é que, com o aprendizado do passado, os países vão ficando melhores nesses passos, que duram cada vez menos. Quem começa depois ganha a chance de convergir mais rápido. Isso ajuda a entender os “milagres econômicos” em países extremamente pobres, como a China recente e o Brasil em meados do século XX.
A convergência está acontecendo na África. O continente da pobreza, das fotos assustadoras, das guerras civis e epidemias está mudando. Nossos filhos não terão a mesma imagem que temos hoje sobre o continente africano e, até chegar ao fim dessa página, você deve se convencer disso.
Nem tudo no mundo é má notícia.
Daron Acemoglu (MIT) e James Robinson (Harvard) formam uma das duplas de economistas mais famosas da academia. Nas últimas décadas, eles ditaram a conversa sobre desenvolvimento econômico com uma série de artigos, cuja tese central foi resumida no best-seller “Por que Nações Fracassam?”.
O segredo para entrar na rota do desenvolvimento, e (o que é mais importante) sustenta-la no longo prazo, estaria nas instituições inclusivas. O segredo do fracasso seriam as instituições políticas extrativas.
As instituições políticas que levam ao sucesso incluem pessoas no processo de governo e geração de valor econômico. As extrativas, por outro lado, concentram o poder de governo numa elite, que dirige a economia em benefício próprio.
No início do século XX, as instituições políticas na África eram um clássico exemplo das extrativas: todo o continente era colonizado por europeus.
Durante o século XX, os países africanos se libertaram da dominação europeia. A exploração estrangeira, porém, foi trocada pela doméstica. Um longo processo de fraturas sociais e guerras civis deu origem a governos autoritários, genocídios e desastres diversos. Felizmente, o cenário está mudando.
A escala do Polity IV avalia fatores como judiciário independente, imprensa livre e oposição parlamentar para classificar regimes políticos entre +10 e -10. Quanto maior o valor, mais democrático o país. O Brasil hoje possui uma nota próxima a 8. Apesar de todos os problemas, nosso país felizmente não luta contra censura estatal ou repressão generalizada de liberdades civis.
Assim como o Brasil, a África vive um período de abertura inédito. Escolha um país aleatório no lado esquerdo do mapa abaixo e ele provavelmente estará melhor no lado direito. Você precisa observar o mapa com muita atenção para achar quem piorou.
Em 1985, nenhum país africano era classificado como democrático. Hoje, a maioria está mais perto da democracia plena do que o contrário.
A Segunda Guerra Mundial levou à morte de até 60 milhões de pessoas e é um clássico exemplo de morticínio humano. Ainda assim, no número total de mortes, as vítimas de qualquer guerra, revolução ou ditadura não se comparada com as da varíola.
Presente na humanidade há séculos, a varíola matou como poucas doenças. Josef Stalin e Abraham Lincoln sofreram a doença, mas sobreviveram. Muitos não tiveram a mesma sorte, como o imperador egípcio Ramsés I e o rei Luís XV, da França.
A medicina moderna tomou pra si o desafio de acabar com a varíola – e conseguiu. Desde 1977, os únicos exemplares do vírus estão armazenados em laboratório. Apenas no século XX, morreram entre 300 e 500 milhões de pessoas.
O continente africano sofreu especialmente com a doença. Foi o último a se livrar – na mesma década que o Brasil, por sua vez o último dos sulamericanos. Mesmo com instituições autoritárias, alguns avanços importantes já chegavam à África nesta época.
Não era suficiente, porém. Erradicar uma doença séria é importante, mas faze-la muitas décadas depois enfraquece o feito. E se a África precisava de melhoras significativas. Democracia e crescimento econômico ajudaram a acelerar as boas notícias – que vieram com força, como mostram os gráficos a seguir.
Enfim, veio o PIB. Como mostra o mapa abaixo, boa parte dos países africanos cresceu a mais do que 4% ao ano. Trata-se de uma taxa razoavelmente alta para um país em um ano – e capaz de causar uma revolução quando se mantém por 20 anos.
No Brasil, para encontrar um crescimento médio acima de 4%, seria necessário voltar ao meio do século XX ou selecionar algum período muito mais curto. Esse crescimento acelerado em países pobres é facilitado pelas oportunidades existentes: há muita gente morando no campo, em regiões isoladas e de baixa atividade econômica; processos de urbanização e crescimento populacional ajudam a aumentar drasticamente a renda nacional, em pouco tempo.
Você talvez já tenha escutado que “ninguém come PIB”, mas não é verdade. Como o PIB mede a renda nacional, seu crescimento com frequência implica em quedas na pobreza, aumento na arrecadação dos governos, acesso a serviços básicos, etc. É uma condição necessária, embora nem sempre suficiente, para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
E, graças ao crescimento do PIB, milhões e milhões de africanos saíram da pobreza e passaram a ter o que comer.
Viver com menos de 1,90 dólares/dia soa impossível para boa parte dos brasileiros. É possível que, só com a banda larga e plano de dados que lhe permitiriam chegar até aqui, você gaste mais do que isso por mês. E foi a realidade de quase todos os africanos durante a história humana.
Nos 20 anos entre 1993 e 2013, a porcentagem de africanos em extrema pobreza caiu de pouco menos de 60% para pouco mais de 40%. A alta pobreza atual pode fazer com que a queda soe pequena, mas não é: sem essa queda na taxa de extrema pobreza, mais de 240 milhões de africanos continuaria nesta situação miserável. Mais do que a população inteira do Brasil, portanto.
Outro ponto importante a se destacar é a aceleração desta queda na atual década. Com o tempo, o processo de aprendizado e a manutenção das instituições inclusivas, os economistas passam a vislumbrar o que possivelmente será o maior feito na história da humanidade: o fim da pobreza humana. E antes do que você imagina.
Os avanços no continente mais pobre do mundo fazem com que especialistas projetem que, em 2030, menos de 10% da população mundial viverá em extrema-pobreza.
O Brasil é particularmente famoso pela demora para montar um sistema de educação básica. Em 1960, o brasileiro médio tinha passado 2 anos na escola. Recente, a escolaridade média ultrapassou os 10 anos por aqui.
O drama na educação africana era maior, mas os avanços são igualmente impressionantes. Em 1950, o mapa mostra a ausência generalizada de estudantes. No período de dominação europeia, não havia interesse em construir escolas. Durante guerras civis e dominações igualmente extrativas de ditadores locais, também não. Instituições inclusivas não são importantes por acaso.
Desde então, a situação se inverteu e quase todos os países possuem algum sistema de educação. Apesar dos avanços, somente locais isolados como Botswana e Africa do Sul possuem escolaridade próxima à brasileira.
O avanço da escolaridade é, também, o avanço do capital humano e social. A educação, como sabe qualquer pai ou especialista na área, é essencial para o desempenho no mercado de trabalho. Isso, por sua vez, alimenta o crescimento da economia, a paz social, fortalece as instituições inclusivas e a capacidade do Estado de sustentar os sistemas de Ensino.
Com esse círculo virtuoso, não há por que não esperar um futuro cada vez melhor.
Além das epidemias, a fome é outra desgraça histórica no continente africano. Pobreza generalizada, problemas climáticos, baixa produtividade na agricultura local e muitos outros fatores auxiliam numa equação que matou milhões nas últimas décadas.
O desafio, felizmente, mudou. Durante boa parte do século XX, populações quase inteiras não tinham acesso ao mínimo de calorias necessárias a um humano. Os nutrientes sequer entravam na conta. As pessoas não consumiam a energia básica para serem ativas e saudáveis.
O desafio mudou. Em 1991, os bolsões de fome generalizada já eram pontuais, mas a situação era vergonhosa. Os avanços são notáveis na comparação com 2015. Hoje, a tarefa é garantir números mais normais.
Continua sendo muito ruim, mesmo na comparação com o Brasil, mas quase todos melhoraram. Em parcela considerável dos país, esta uma realidade para menos de 20% da população. É importante lembrar também que trata-se de um continente com 1,2 bilhão de pessoas. A mudança para um absurdo tão menor que o anterior, em 25 anos, é a garantia do básico para alguns Brasis.
Quando escutamos sobre o aumento na expectativa de vida desde alguns séculos atrás, ele não significa apenas que ficamos mais longevos, vivendo mais durante a velhice. Na verdade, essa é uma parte menor na história. Muito mais significativos são os avanços na mortalidade infantil.
Como a expectativa de vida é uma média da idade com que todas as pessoas morrem, a saúde dos recém-nascidos é essencial para o resultado. Mortes precoces pesam para levar a média para baixo, e muito mais do que velhices longas.
Alguns séculos atrás, antes dos avanços na medicina e saúde pública, era comum que muitos recém-nascidos não completassem a infância. Da falta de nutrientes ao tratamento de esgoto, passando pela ausência de hospitais, remédios e pesquisa avançada na área, tudo conspirava contra as crianças.
A revolução foi tão grande que demoramos a nos acostumar. Famílias continuam tendo mais filhos do que soa razoável até que a cultura permite. Planejamento familiar, participação feminina no mercado de trabalho e urbanização ajudaram nesse processo. Aconteceu primeiro na Europa, se acelerou por aqui durante a Ditadura Militar e está acontecendo agora na África.
Novamente: escolha um país ao lado esquerdo, cheque ao lado direito e notará a diferença.
A malária, causada pela picada de um mosquito, é outro drama histórico africano. Em países como Chade e Congo, chega a matar mais de 70 dentre cada 100 mil habitantes. Para efeito de comparação, as cidades mais violentas do Brasil enfrentam uma mortalidade menor por homicídios.
Novamente, a situação segue vergonhosa, mas com avanços difíceis de ignorar. Em vidas, a queda de 48% entre 2000 e 2015 representa cerca de 6 vezes as vítimas anuais de homicídio no Brasil. E, novamente, a queda acelerada permite o início de um sonho: o fim de um dos morticínios mais banais do e vergonhosos do nosso tempo.
O último gráfico resume o que todo o texto mostrou: um mundo novo está surgindo para os jovens africanos, muito melhor que o dos seus avós.
O analfabetismo da população idosa é reflexo da falta de escolaridade que receberam quando crianças, já mostrada em gráficos anteriores. A situação é muito distinta para seus netos: a maioria deles é alfabetizados; em parte considerável do continente, é o caso de quase todos.
Os avanços na África indicam a possibilidade de uma conquista histórica: garantir o acesso de quase toda a humanidade a condições básicas de vida. Isso não significa, porém, que a convergência para a qualidade de vida europeia será fácil.
O passo seguinte será ainda mais difícil. Após a superação das piores vergonha em índices sociais básicos, o desafio é aperfeiçoar as instituições e torna-las cada vez mais inclusivas. A maioria dos países demora décadas para superar a tarefa, conhecida como “armadilha da renda média”. É o caso do Brasil.
Ainda assim, é indiscutível a revolução dos últimos anos. A guerra não acabou, mas a batalha africana começa a ser por boa comida, boa escola e boa saúde. Faz toda a diferença para quem, poucas décadas atrás, lutava por alguma comida, escola ou saúde.