por Diogo Ramos Coelho

É Natal. Shoppings lotados, vagas disputadas a tapas, lojas abarrotadas, sorrisos estampados. Ótimo para a economia, não? Mais gente comprando, mais empregos sendo criados, maior crescimento econômico. O dinheiro circula. As vendas sobem. Comerciantes comemoram. A Sandra Annenberg conta no Jornal Hoje histórias fantásticas de jovens que conseguem um emprego temporário e sonham com a carteira assinada. Logo, não é difícil concluir: bom mesmo seria se o ano todo fosse assim. Vejamos: se a economia fosse como um carro, o consumo seria o motor. E se quisermos maior velocidade, o natural é pisar o pé no acelerador, certo?

Calma lá. O consumo é mesmo o motor que faz girar as engrenagens da economia? É necessário, primeiro, distinguir entre consumo e produção. Se a economia fosse um carro, o consumo certamente seria a direção, porém o que faz esse carro andar para frente é um processo longo de transformação de matérias primas e de criação de valor – que são conduzidos por investimentos e por poupança.

Antes de ser consumidor, um indivíduo deve ser produtor – ou prestador de um serviço. Afinal, de onde os consumidores recebem o dinheiro utilizado para comprar? Em troca do produto vendido ou do serviço prestado, eles recebem um pagamento. O dinheiro nada mais é do que um recibo: um papel que estoca o valor do trabalho que você fez para receber aquela nota. Os pagamentos são recompensas a um trabalho. É apenas após receber seu pagamento que um trabalhador pode consumir. As nossas demandas como consumidores somente são possíveis pela nossa oferta de trabalho/produção a outras pessoas.

Para os trabalhadores, os pagamentos que recebem são sua renda, que pode ser transformada em consumo; mas para os empresários, os salários representam uma despesa. A contratação de um trabalhador (e o pagamento do seu salário) é o principal investimento feito pela empresa. Os salários dos trabalhadores aparecem como “consumo” no momento em que essas rendas são gastas em comida, roupas, celulares, carros, férias e assim por diante. No entanto, a renda desses trabalhadores – e o consumo que ela possibilita – foi conquistada pela contribuição que eles deram em outras etapas da atividade econômica e que adicionaram valor ao processo de produção.

Na economia, o processo de adição de valor ocorre por meio de vasta estrutura de produção que transforma matéria-prima – madeira, petróleo, ferro – em bens finais. Esse processo é dividido em várias etapas e é fruto da cooperação anônima de milhões de pessoas. Muitas vezes, leva meses (ou até anos) para ser completado. A cada estágio, a atividade de transformação e de adição de valor não é financiada pelo “gasto do consumidor”, mas sim por uma combinação de novos investimentos ou na aplicação da poupança – por exemplo, no uso dos lucros de uma empresa para a contratação de mais trabalhadores ou para a compra de nova máquina.

O ato de consumir, por si só, não necessariamente se traduz em maior produção ou em mais empregos. Afinal, consumidores não investem na produção ou sequer empregam pessoas. As empresas sim. Uma vez que novas contratações são um investimento arriscado, os empresários pesam essa decisão com base no cálculo sobre os tipos de investimentos que eles querem realizar e quais são as suas expectativas futuras. Quanto mais longe da linha de chegada está a produção de um bem final, menos a empresa depende do consumidor final. E uma vez que o emprego está espalhado por esse longo processo de produção, com relativamente poucas pessoas trabalhando na parte de vendas de produtos finais, mudanças nos cálculos de investimentos têm impactos dramáticos sobre o emprego e sobre a produção.

Não há, portanto, fundamentação lógica para sustentar a ideia de que uma economia pode crescer somente por meio do estímulo ao consumo. Exemplo: durante boa parte da história da humanidade, as pessoas comuns tiveram que passar suas vidas cultivando alimentos. Hoje, há bilhões de pessoas a mais no planeta – e os alimentos são mais baratos, mais abundantes e mais variáveis do que em qualquer outro momento da história. Para garantir essa fartura, menos pessoas precisam trabalhar atualmente na agricultura. O aumento na produção de alimentos não foi possível por que havia mais pessoas… comendo! Ele foi possível pela manipulação de sementes e da terra, pelos investimentos em máquinas agrícolas, pelo controle de pragas e pela invenção de formas de plantação e de colheita que possibilitaram nossa saída de empregos no campo.

O ato de consumir, por definição, retira de uma economia determinado bem. Esse ato não agrega valor, portanto, ao processo de produção – ele é o que finaliza esse processo. Se quisermos um crescimento econômico sólido e sustentável, cada um de nós deve descobrir as formas mais valiosas de servir ao outro e contribuir para o processo de adição de valor e de criação de riqueza, antes que possamos tirar ou consumir algo desse processo. O consumo é o objetivo, mas é a produção que é o meio.

Como todas as outras pessoas, até mesmo Papai Noel deve produzir durante todo o ano antes de recebermos seus presentes.

 

diogo  Diogo Ramos Coelho é diplomata formado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco (IRBr), é Professor Voluntário do Instituto de Relações Internacionais da UnB. Em 2008 foi vencedor do V Prêmio Donald Stewart Jr., promovido pelo Instituto Liberal do Rio de Janeiro e pela Foundation for Economic Education de Nova York.

Compartilhar