Ao ler algumas notícias sobre a radicalização política em país vizinho, lembrei hoje pela manhã de uma história interessante contada por Contardo Calligaris no livro “Todos os reis estão nus”. Diz ele que, num domingo italiano no fim dos anos 50, sua família estava reunida para o almoço. A avó materna servia nhoque feito em casa. Detalhe: na década de 1930, seu avô materno não tinha sido fascista militante, mas tampouco tinha resistido. Diante de Mussolini, fora passivo e um tanto gregário – enquanto seu pai, liberal e social-democrata, tinha encarado o inimigo.

O psicanalista conta que essa diferença entre seu pai e seu avô, em geral, não produzia faíscas – porém, naquela ocasião, seu avô, descontente com o governo da época, esboçou uma pequena lista dos “benefícios” do fascismo: vantagens trabalhistas, sindicatos corporativos, grandes obras, saneamento da planície do sul do Lazio (a região de Roma). Pena, acrescentou o velho, que isso tivesse levado à guerra e à aliança com a Alemanha nazista. Houve um silêncio consternado dos pais, que forçou o avô a continuar a enumeração dos custos de tamanhos “benefícios”.

Mastigando nhoque, o avô resmungou sobre a aventura africana, a censura, a prisão e o confinamento dos opositores, as leis raciais etc. O pai perguntou: “E, para sanear pântanos e instituir sindicatos, era preciso tudo isso?”. A pergunta pairou no ar, sem resposta. Calligaris conta no livro que o nhoque, ao se desfazer em suas bocas, ficou pastoso e chocho. Desde então, em seu vocabulário íntimo, a expressão “discurso de nhoque” designa toda conversa que salienta os benefícios de um regime e silencia ou minimiza seu lado sinistro, com o pressuposto de que o lado sinistro seja um custo “necessário”.

Calligaris continua: nos anos 60, militante socialista, praticou bastante o discurso de nhoque. Assolado pelas notícias sobre a falta de liberdade do outro lado da Cortina de Ferro, respondia prontamente: “Liberdade de quê? De morrer de fome?”. Como se a liberdade fosse o preço que se paga normalmente para poder comer. E continua: à força de viajar pelos países do bloco socialista, ele percebeu que, quase sempre, o discurso de nhoque era a fala do turista, que vai voltar sem problemas para seu país. Quem paga seu pão com a renúncia a poder expressar-se, reunir-se etc., em geral perde a fome.

Hoje, continua grande a tentação do discurso de nhoque, pelo qual nada do que queremos pode acontecer sem a contrapartida de uma renúncia penosa. De onde vem a força desse discurso? Calligaris esboça uma resposta: Freud observou que, quando se trata de reprimir nosso próprio querer, sempre tendemos a reprimir muito mais do que é preciso. Por exemplo: estou a fim de transar com todo o mundo, mas também quero ser um marido fiel? Melhor desistir do sexo de vez, entrando num convento. Ou, então: estou cansado da insegurança nas nossas ruas? Para facilitar e garantir o policiamento, aceito a militarização das polícias, a guerra discriminatória contra negros e pobres, bem como viver isolado numa prisão.

Talvez, à força da reação ao discurso de nhoque, a gente finalmente aprenda a pensar além da alternativa simplista entre, de um lado, a liberdade absoluta dos agentes econômicos e, do outro lado, o “Estado forte”. Ao discutir a sociedade que queremos, devemos lembrar que, para evitar a maracutaia nos mercados financeiros, não é necessário que os agricultores sejam impedidos de vender livremente suas batatas no mercado da vila. Reciprocamente, para evitar a opressão do Estado e do “partido único”, não é necessário recusar assistências e garantias coletivas.

A receita contra o discurso de nhoque, diz Calligaris, é dos anos 60. Não acredite nas alternativas excludentes (pão OU liberdade) e peça alegremente o “impossível”: pão COM liberdade. Não se preocupe: na maioria dos casos, entre os dois, não há contradição alguma.

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