Ao desenhar políticas públicas, gestores tomam decisões difíceis que significam custos para uma parte e benefícios para outra parte da sociedade. Na discussão sobre as políticas de mitigação ao COVID-19, não é diferente: governo e sociedade querem equilibrar políticas públicas que, simultaneamente, minimizem risco para saúde pública e maximizem benefícios socioeconômicos para a população. Como premissa a uma decisão bem informada, é preciso que estejam claros custos e benefícios de cada intervenção.

A discussão sobre custos está relativamente avançada. Aqui entram perguntas como e quanto o governo deve gastar com políticas de proteção social (pelo lado da demanda), compensação a firmas e trabalhadores formais (pelo lado da oferta), qual será o tamanho da recessão gerada, entre outros. Medidas vem sendo votadas no Congresso, e economistas têm se envolvido no debate regularmente.

Por outro lado, ainda sabe-se e discute-se muito menos sobre o benefício de políticas de isolamento social. Segundo pesquisadores do Imperial College, de Londres, se nada for feito para combater o COVID-19 no Brasil, poderíamos atingir a marca de aproximadamente 1 milhão de óbitos. Um cenário de mortalidade elevada para uma doença contagiosa virtualmente sujeita toda a população a um maior risco de ser tornar uma vítima. Cabe então a pergunta: quanto a sociedade valoriza a redução no risco de morte? A questão é complicada e envolve diferentes dimensões éticas. Naturalmente, não é possível dar uma resposta satisfatória a essa questão – ela envolve elementos intangíveis que não são mensuráveis. Mas há uma parte específica da perda de uma vida que é potencialmente mensurável: seu aspecto econômico.

Há ao menos duas formas de mensuração dos efeitos econômicos de uma chance menor de morrer. A primeira, mais simples e controversa, olha apenas para o aspecto produtivo. O valor de poupar vidas seria igual ao total potencialmente produzido pelas pessoas até o resto de suas vidas. Tal método, portanto, ignora qualquer valor que não estiver diretamente associado à capacidade produtiva de uma pessoa. A segunda alternativa, proposta por Thomas Schelling, vencedor do Nobel de Economia, baseia-se no valor que pessoas atribuem a uma redução do risco de mortalidade. Essa abordagem, que adotamos em nosso estudo, é base para análise de políticas públicas em inúmeros governos e organizações internacionais, como o Banco Mundial, e é frequentemente utilizada em tribunais ao redor do mundo.

Pessoas constantemente fazem escolhas com base nos riscos que encontram. Algumas evitam dirigir à noite ou durante uma tempestade; outras modificam hábitos alimentares e estilo de vida visando uma vida mais longa e saudável. Ocupações com maior risco, na média, pagam mais devido à exposição adicional. Cada uma dessas escolhas tem um benefício (reduzir o risco de vir a morrer) e custo implícito (deixar de fazer algo que se desejaria ou receber menos). O estudo cuidadoso do comportamento dos indivíduos revela o valor que atribuem à redução dos riscos, tal qual em uma apólice de seguros. Em economês, observa-se a “preferência revelada”. Os principais estudos da área quantificam o valor da redução do risco com base nos diferenciais de salários entre ocupações com diferentes taxas de acidentes fatais no trabalho.

Nossa análise baseia-se nos cenários projetados pelo Imperial College para o Brasil. O isolamento intermediário, como definido por pesquisadores do Imperial College, corresponde a um distanciamento social (redução de interações sociais) de 35% a 45% para todas as faixas etárias. Já o isolamento intermediário com isolamento intensivo de idosos considera um distanciamento social de 60% para indivíduos a partir de 70 anos, e de 33% a 44% para os demais. Por fim, o cenário de isolamento social intensivo considera um distanciamento social de 75% para todos os indivíduos. Conforme ilustrado abaixo, o número de mortes pode ir de 44 mil, em um cenário de isolamento social intensivo, até por volta de um milhão, em um cenário de nenhuma ação de isolamento. Em cada cenário, quanto mais alto o número esperado de mortes, maior o risco de fatalidade para cada indivíduo. Dessa forma, políticas de combate à expansão do contágio se traduzem no benefício de reduzir esse risco para cada cidadão.


Fonte: elaboração dos autores com dados do Imperial College (Walker et al).

Para cada cenário, calculamos o valor médio que o brasileiro atribui à redução do risco de mortalidade. Um estudo recente, dos economistas Rafael Pereira, Alexandre de Almeida e Cristiano de Oliveira, indicou que esse valor corresponde a 0,14% a 0,19% do salário do trabalhador, para uma diminuição de 1 em 100.000 na chance de sofrer um acidente fatal no trabalho. Nossa análise toma como base o valor mais recente do rendimento médio real anual, de R$28.692. Cruzando a redução no risco de fatalidade implícita nos distintos cenários do Imperial College, ajustadas à aversão ao risco média, com as estimativas empíricas da disposição a pagar dos brasileiros para uma redução no seu risco de morte, podemos estimar o valor econômico implícito das políticas de mitigação.



Nossa análise indica que a redução no risco de mortalidade ao se passar de um cenário de nenhuma ação de isolamento para o isolamento intermediário teria um valor total para a população de R$350 bilhões por mês ao longo de um ano (58% do PIB anual). Um cenário de isolamento intermediário, mas com medidas adicionais de isolamento intensivo de idosos, teria um valor equivalente a R$ 420 bilhões por mês ao longo de um ano (70% do PIB anual). Por fim, um cenário de isolamento social intensivo amplo, no qual se poupam mais vidas, valeria R$640 bilhões por mês, também ao longo de um ano  (106% do PIB anual). 

Destacamos que os valores apresentados subestimam o benefício das medidas, pois consideram apenas o quanto um indivíduo valora a redução de risco para si. Ou seja, tais valores refletem apenas um dos componentes do benefício total. Na prática, pessoas também atribuem valor à redução do risco a amigos e familiares, bem como se beneficiam direta e indiretamente de um maior número de pessoas saudáveis na economia.

Ressaltamos que essas conclusões estão sujeitas às hipóteses dos cenários projetados e da metodologia utilizada. Entretanto, se as tomarmos como base de comparação, podemos pesar os benefícios estimados contra os custos estimados de ações de contenção e compensação econômica. O benefício anualizado do cenário mais extremo é de R$7,7 trilhões, ou 106% do PIB de 2019. O total de gastos anunciado de R$543,5 bilhões em seis meses, além de uma recessão ao redor de 5% no ano, que poderia de início parecer caro, na verdade está saindo uma barganha.

Diego S. Cardoso é doutorando em Economia Aplicada pela Cornell University e pesquisador sênior do Instituto Mercado Popular. Ricardo Dahis é doutorando em Economia pela Northwestern University, pesquisador sênior do Instituto Mercado Popular, e fundador da plataforma Base dos Dados.

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