Fabio Giambiagi e Paulo Tafner publicaram, em 2010, um livro intitulado “Demografia: a ameaça invisível”. O título traduz aspectos importantes do tema: a demografia ameaça porque é perigosa, desafiadora. E invisível porque desconhecida por quase todo o povo. Estamos ficando velhos e não nos preparamos para isso.
Comecemos pelo básico: onde estamos hoje? Qual a situação demográfica brasileira? O gráfico a seguir pode responder isso:
Esta é a pirâmide etária brasileira de acordo com o último Censo Demográfico, realizado pelo IBGE, em 2010. Nossa estrutura populacional assemelha-se a uma pirâmide: bases largas, corpo mais estreito e cume fino.
A história demográfica dos países possui alguns elementos comuns: num primeiro estágio de desenvolvimento, as nações têm altas taxas de mortalidade e natalidade. As mães têm muitos filhos justamente porque sabem que poucos sobreviverão.
À medida que se avança em termos de urbanização e desenvolvimento econômico, taxas de mortalidade e natalidade caem. A primeira, contudo, cai mais rapidamente que a segunda. O resultado dessa defasagem é um crescimento populacional expressivo.
Em dado período, o país entra no chamado “bônus demográfico”, momento único na história, onde a relação entre população ativa e aposentada favorece o crescimento; uma “janela de oportunidade”, por assim dizer. Nesse momento, a nação ainda é bem jovem, mas suas taxas de mortalidade e de natalidade já caíram.
Significa que há um grande contingente de pessoas disponíveis para serem empregadas, acrescido de outro montante de jovens que, posteriormente, entrarão no mercado de trabalho. Em termos técnicos, tal janela é caracterizada por uma queda na chamada “razão de dependência”, que nada é do que a população de jovens (até 14 anos) e idosos (+65 anos) divididas pela população em idade ativa (aqueles entre 15 e 64 anos).
Janelas de oportunidade são passageiras. Após um período surfando a crista da onda demográfica, a situação se inverte: a população outrora trabalhadora envelhece e se aposenta. O número de jovens entrantes no mercado de trabalho, contudo, não é suficiente para manter tudo constante.
O Brasil passou por um envelhecimento com poucas contrapartidas na história. Uma maneira consagrada de medir essa velocidade é avaliar quanto tempo, em anos, levou-se ou levar-se-á para que a população idosa de um país passe de 7% para 14% do total.
No Brasil, contudo, estima-se que tal dinâmica tomará apenas duas décadas: uma velocidade 6 vezes superior à francesa! De fato, o envelhecimento da população brasileira se dará de maneira espantosamente célere.
O primeiro gráfico deste texto continha a pirâmide etária do Brasil em 2010. A seguir, está a projeção para a mesma daqui a algumas décadas. A figura nos mostra a projeção da pirâmide etária brasileira para 2060, realizada pelo IBGE num claro processo de envelhecimento da população. É visível tanto o alargamento do topo (mais idosos) quanto o estreitamento da base (mais jovens).
Talvez valha a pena voltar à primeira imagem para comparar o que está acontecendo.
Esse processo está expresso também na razão de dependência – a quantidade de idosos como porcentagem da população entre 15 e 64 anos.
Em termos mais intuitivos, uma razão de dependência de 10% implica que há 10 pessoas ativas para cada idoso. No gráfico acima, há um crescimento vertiginoso da razão de dependência brasileira. Se em 2000 tínhamos 10 pessoas em idade ativa para cada idoso, em 2060 teremos apenas duas.
Também é interessante avaliar como tais projeções são modificadas ao longo dos anos, com menor número de jovens e maior envelhecimento – e, especialmente, em que sentido ocorreram as mudanças. Essas eram as projeções feitas do IBGE em 2004:
A figura acima mostra que o IBGE projetava, para o ano de 2050, uma população em idade ativa em torno de 164,5 milhões de brasileiros que, somados a uma população de jovens de 46,3 milhões, e uma população de idosos de 48,9 milhões, constituiriam, naquele ano, um total de quase 260 milhões de brasileiros.
Apenas quatro anos depois, em 2008, o IBGE revisitou suas projeções com uma mudança extremamente nítida e retratada no próximo gráfico.
Num espaço de quatro anos, o IBGE passou a projetar 26,4 milhões de brasileiros em idade ativa a menos, somados a 18 milhões de jovens a menos. Ou seja, a população não-idosa estava superestimada em 46 milhões na projeção anterior. Movimento esse explicado, naturalmente, pela dinâmica descrita nos parágrafos dedicados à história demográfica dos países.
A tabela a seguir traz dados das projeções mais recentes do IBGE:
Entre 2000 e 2010, a população em idade ativa cresceu a um ritmo de 1,7% ao ano. Os idosos, por sua vez, cresceram a uma taxa quase duas vezes maior: 3,1% ao ano. Para a década seguinte, o IBGE projeta que a população idosa crescerá quatro vezes mais rápido do que a PIA. Na década de 20, tal múltiplo chegará a 10(!). Nos dez anos posteriores, por sua vez, nossa população em idade ativa chegará a seu máximo e passará a cair em termos absolutos, com o ritmo de queda se acentuando nos anos seguintes.
A respeito dessa diminuição absoluta da PIA, veja abaixo:
De fato, em 2033, segundo o IBGE, nossa População em Idade Ativa será de 154,2 milhões de brasileiros. A partir daí, como mostra a tabela anterior, o ritmo de queda é veloz. O crescimento da PIA chegará à incrível taxa de quase -1% ao ano entre os anos de 2050-2060.
Os desafios postos são imensos. Se o Brasil já gasta mais com previdência do que quase todos os países do mundo, esta situação tende a se agravar em velocidade impressionante. O crescimento da economia deve diminuir com o menor número de trabalhadores. O gasto para sustentar brasileiros que não trabalham será cada vez maior.
A ameaça demográfica está longe de ser conhecimento popular. Na realidade, muitos dos mais sábios – não importa se você acha que são os intelectuais ou os mais idosos – conhecem a ameaça da transição demográfica.
Essa temática infelizmente ainda é muito restrita aos poucos que se aventuraram pelos dados populacionais. Não se deve, contudo, julgar uma ameaça pela preocupação de quem ela atinge. Como bem escrito por Giambiagi e Tafner, citados no início deste artigo, a demografia constitui uma ameaça invisível – e, exatamente por isso, é ainda mais ameaçadora.
Escrito com Manoela Scott e publicado em versão modificada na Newsletter do Núcleo de Conjuntura Macroeconômica, vinculado ao Insper.