Por Diogo Ramos Coelho

House of Cards, a primeira série produzida pelo Netflix (um serviço online de streaming media que vem ganhando cada vez mais adeptos entre cinéfilos e espectadores de televisão), estava fadada a fazer história desde a concepção. O site resolveu liberar todos os episódios da primeira e, depois, da segunda temporada para os clientes poderem assisti-los cada um no seu próprio ritmo. Há inúmeras análises sobre a revolução patrocinada pela Netflix em seu formato inovador. Mas House of Cards seduz também pelo roteiro: cru, real, violento, impetuoso, antiético, sedutor, inspirador, revoltante.

A série é narrada por Frank Underwood, interpretado magistralmente por Kevin Spacey, um deputado democrata da Carolina do Sul que atua como líder do partido no Congresso norte-americano. Após trabalhar para a eleição do Presidente Garret Walker, esperando em troca ser nomeado Secretário de Estado, Frank é preterido e começa a planejar meios de ganhar novamente poder e prestígio.

O planejamento maquiavélico de Frank e sua meticulosa execução talvez sejam as partes mais sedutoras e menos críveis do roteiro. Como observou um colunista do Washington Examiner, Frank é competente demais. Barack Obama, por exemplo, ao comentar sobre a série, disse que “gostaria que as coisas fossem assim tão eficientes“. Frank é capaz de antecipar ações e reações aos seus esquemas – quase como um narrador onipresente que molda a sua própria trajetória política.

House of Cards pode até exagerar na eficiência do seu personagem principal – mas coloca às claras algumas verdades inconvenientes sobre a política que, apesar de óbvias, não parecem ser tão evidentes para o público geral.

Em primeiro lugar, a série demonstra que não existe “um” governo. É comum encontrar em jornais, revistas e artigos a ideia de que o governo age como um ente monolítico e unitário. Frases como “o governo elevará os impostos” ou “o governo construirá uma ponte” são corriqueiras e soam naturais. O governo é, muitas vezes, descrito como um agente unitário. Mas é evidente que o processo de tomada de decisão governamental é fruto da negociação e da barganha de grupos, subgrupos e indivíduos – cada um com interesses específicos e agendas próprias. A “ação coletiva” do governo nada mais é do que um produto da cooperação, das disputas e das trocas entre os membros que o constituem.

House of Cards contradiz, ainda, a visão clássica de que a ação governamental é motivada pelos melhores sentimentos de natureza humana (o “espírito público”) – enquanto o setor privado seria o domínio do autointeresse. Essa crença, como descrevem os teóricos da teoria da escolha pública, leva a uma bifurcação absurda: a ação privada seria autointeressada e egoísta, enquanto a ação pública seria o resultado da vontade geral de uma sociedade. Na série, por exemplo, os ganhos auferidos com a aprovação de uma reforma do sistema educacional não são medidos em termos de benefícios para a população, mas em termos de renda, prestígio e poder para os seus proponentes.

Como ressaltou Steve Horwitz, House of Cards é a política sem romance: seu roteiro demonstra que os políticos estão fundamentalmente voltados para a satisfação de seus interesses. É fato que a posse do poder político não torna as pessoas em santos altruístas ou em sábios visionários. Mas facilmente presume-se que quando alguém toma o poder, essa pessoa adquira uma visão mais ampla, que a leve a tomar decisões as quais priorizem o interesse nacional ou de seus constituintes – e não apenas privilegie certo grupo ou ela própria. Essa concepção é ilusória e fundamentalmente errada. Frank Underwood demonstra que devemos ser céticos em relação aos políticos. Afinal, a política atrai aqueles que têm habilidades especiais para relações públicas, toca de favores e jogos de poder – e não necessariamente aqueles que melhor servem aos interesses difusos da sociedade.

A história também demonstra outra verdade que foge ao senso comum: dinheiro e poder não são equivalentes. Na série, o personagem Remy Danton é um lobista profissional cujos clientes são grupos corporativos que mantêm vínculos políticos. Danton demonstra como as empresas, em associação, buscam iniciativas que devem favorecer interesses específicos do grupo: mais investimentos públicos em uma região onde se localizam suas plantas industriais, crédito facilitado, apoio diplomático à abertura de mercados internacionais de interesse, entre outros. Um dos patrões de Danton é Reymond Tusk, um magnata do setor de energia com fortes laços com o Executivo. Ambos demonstram o capitalismo de laços em ação – a emergência de canais clientelistas e como o governo usa seu poder para beneficiar empresários com conexões políticas.

A ação dos lobistas em Washington pode, a princípio, reforçar a crença de que o poder econômico é responsável por grande parte das mazelas da política. A série demonstra o contrário. O poder econômico é um cliente do poder político, que muitas vezes tenta cooptá-lo, mas jamais consegue sobrepor-se a ele.

O roteiro está cheio de exemplos simbólicos sobre o embate entre poder econômico e poder político. Ao comentar sobre a eficiência profissional de Remy Danton, que havia sido seu assessor em anos anteriores, Frank Underwood faz excelente distinção entre dinheiro e poder, numa das frases mais memoráveis da série: “que desperdício de talento. Ele escolheu dinheiro ao invés de poder – um erro que quase todos cometem aqui. Dinheiro é a mansão no bairro errado, que começa desmoronar após 10 anos. Poder é o velho edifício de pedra que se mantém por séculos. Não respeito quem não sabe distinguir os dois.

Na segunda temporada, em discussão com um empresário chinês, Frank torna essa diferença novamente mais clara: “somem todos os seus bilhões e vocês terão o PIB da Eslováquia. Eu tenho o governo federal dos Estados Unidos. Seu dinheiro não me intimida. O máximo que o seu dinheiro pode comprar é influência. Eu exerço poder constitucional.” Mais adiante, em uma discussão com o empresário Reymond Tusk, Frank ressalta: “você pode ter todo o dinheiro, Reymond, mas eu tenho todos os homens com armas.”

Como ressaltou Luciana Lopes, a série demonstra, ainda, como a mídia pode ser inimiga ou aliada dos políticos. Cabe aos jornalistas vigiar ou acompanhar os atos do poder. Mas não raramente eles podem ser usados como instrumento para assassinar reputações, influenciar a opinião dos eleitores ou divulgar mentiras que prejudicam uns e beneficiam outros. House of Cards quebra, por fim, o mito de que as Organizações Não Governamentais funcionam à revelia de relações com o Estado. A mulher de Frank, Claire Underwood, comanda uma ONG que faz uso contínuo de seus contatos no governo para adquirir fundos e facilidades para seus projetos.

A série do Netflix é uma adaptação do romance homônimo escrito por Michael Dobbs e da minissérie britânica criada por Andrew Davies, que foi ao ar no Reino Unido no começo da década de 1990. A facilidade de adaptação do roteiro original a realidades políticas distintas demonstra como os jogos de poder, o capitalismo de laços, a ambição, a moral política e o exercício das liberdades civis são temas universais. Apenas imagino como seria a versão brasileira do nosso Castelo de Cartas.

 

Diogo Ramos Coelho é diplomata e formado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Trabalha como assessor para assuntos internacionais do Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Fez mestrado em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco (IRBr), com foco em economia política internacional, e aventurou-se como professor voluntário do Instituto de Relações Internacionais da UnB. É autor do livro “Mundo em Crise“, publicado pela Editora da UnB.

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